A televisão conseguiu um pouco de fôlego em 2011. Mesmo sabendo que não é fácil reinventar um universo feito de fórmulas predeterminadas e que depende do gosto dos telespectadores para sobreviver, com boas sacadas, a programação trouxe inovações, reesquentou em uma fogueira pratos já conhecidos e ousou em algumas categorias. É o caso do beijo lésbico em "Amor e Revolução", da adaptação de "O Astro”, o sentimentalismo de "Cordel Encantado" e uma trama das nove com requintes de novela das sete, que conseguiu elevar a audiência do horário nobre da Globo. Folhetins de aspecto batido tiveram como mérito personagens que ganharam interpretações brilhantes, como Norma de Glória Pires e Léo de Gabriel Braga Nunes, em "Insensato Coração", da Globo. E a Dulce de Cássia Kiss, que roubou a cena dos protagonistas em "Morde & Assopra". Boas séries ocuparam espaço: "A Mulher Invisível" marcou o retorno do ótimo e talentoso Selton Mello à TV, ao lado da competente e não menos talentosa Débora Falabella. Uma dupla e tanto. Outras, com todo direito, seguirão em frente em 2012. É o caso de "Tapas & Beijos". Sem grandes apostas na safra do humor - que desviou feio com piadinhas de mau gosto no "CQC", da Band; e apelação generalizada do "Pânico na TV", da Rede TV!, que, por ironia do destino, acabou caindo numa armadilha e fazendo propaganda gratuita para uma marca de cerveja -, o imprevisto ficou por conta da saída de Fátima Bernardes da bancada do "Jornal Nacional". No reino do entretenimento e fantasia, com altos e baixos, salvaram-se poucos. Só os que fizeram, realmente, diferença.
Novela das nove

A telenovela ainda é preferência nacional. E em 2011 comemoraram-se 60 anos da novela brasileira e ganharam um programa especial – fraquinho - no “Globo Repórter”. Mas, como já era previsto e não é de hoje, faltaram às tramas, principalmente às das nove, uma boa dose de originalidade. "Insensato Coração", da dupla Gilberto Braga e Ricardo Linhares, não empolgou. Nem a brilhante presença de um elenco estrelar salvou a trama. O já batido "Quem Matou?" para identificar o assassino de Norma rendeu pouquíssimo. Para felicidade do público ainda bem havia Léo, um sucesso na mão de Gabriel Braga Nunes, que substituiu Fábio Assunção às pressas. Braga deitou e rolou, e pode comemorar o título de melhor ator de 2011. O mesmo não se pode dizer do casal de protagonistas. Paola Oliveira e Eriberto Leão deram aulas diárias de inexpressividade. Já "Fina Estampa", de Aguinaldo Silva, é divertida, mas não renova. Apesar da pegada bem mais popular do que suas antecessoras, a trama é previsível e deixa sempre um gostinho de déjà vu. Felizmente a trama conta com a dupla mais divertida do momento, Tereza Cristina (Christiane Torloni) e Crô (Marcelo Serrado).
Encantada

Em contrapartida, a Globo produziu uma das melhores novelas dos últimos anos: "Cordel Encantado". O folhetim de Duca Rachid e Thelma Guedes foi tudo: elenco, trama, cenário, figurino, trilha sonora e fotografia. Só pecou pela "barriga" depois do terceiro mês no ar. Em meios a tantos destaques, só para citar alguns: Osmar Prado, Débora Bloch, Natália Dill, Jayme Matarazzo, Domingos Montagner, Bruno Gagliasso, Ilva Niño, a dupla Marcos Caruso e Zezé Polessa se sobressaiu. Outra boa surpresa é a sucessora, "A Vida da Gente", de Lícia Manzo. O texto é inteligente, delicado e elegante. A autoria segue bem a cartilha Manoel Carlos. "Morde & Assopra", na faixa das 19h, esteve longe de ser um sucesso e apresentou um festival de bizarrices no último capítulo, mas no balanço geral foi um bom entretenimento. Destaque para Dulce (Cássia Kiss), Áureo (André Gonçalves), Xavier (Anderson di Rizzi), e Elaine (Otaviano Costa). No ar, "Aquele Beijo", de Miguel Falabella, segue na linha leve do horário.
Fiasco

A ditadura militar foi o mote de "Amor e Revolução", do autor Tiago Santiago, no SBT. O folhetim relembrou acontecimentos marcantes dos chamados "anos de chumbo". Mas o que deu o que falar não foi essa triste parte da história do Brasil e, sim, o primeiro beijo gay de uma telenovela brasileira. As personagens de Marcela (Luciana Vendramini) e Marina (Giselle Tigre) protagonizaram a cena, mas o repeteco na versão masculina que estava previsto e até gravado foi cortado do script.
E se os vilões estão dando as cartas, mocinhas e mocinhos andam em falta. E já não arrebatam o telespectador como antes. Jesuíno (Cauã Reymond) e Açucena (Bianca Bin), de "Cordel", formaram par romântico afinado, mesmo parte com parte do público torcendo para que o galã de Brogodó ficasse com Doralice (Natalia Dill) - bem mais carismática que a primeira; outra dupla que deu certo foi Quintanilha (Rodrigo Lombardi) e Amanda (Carolina Ferraz). Já Renê (Dalton Vigh) e Griselda (Lília Cabral) são insossos. E fica nítido o melhor entrosamento dela com Guaraci (Pedro Rocha). Mas os campeões de falta de carisma, química e empatia são Marina (Paola Oliveira) e Pedro (Eriberto Leão).
Um remake foi a grande aposta da Record. "Rebelde", que ganhará segunda temporada, tem escalações equivocadas, a começar pelos protagonistas (fraquíssimos), e sofreu com a falta de um horário fixo. A trama, que estreou com 9 e chegou a 11 pontos, hoje patina nos 6.
Ver de novo

O SBT curte a excelente fase de suas tramas vespertinas, como "Marimar", protagoniza pela cantora e atriz Thalia. O sucesso de audiência é tanto que a emissora já escalou "Maria do Bairro" como substituta. Na TV Paga, quem brilhou foi "Vale Tudo", de Gilberto Braga. A trama, que tem Odete Roitman (Beatriz Segall) como vilã, foi transportada do canal Viva para as redes sociais. A reprise bombou no Twitter em plena 0h. "O Astro", de Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro, inaugurou um novo horário de novelas na Globo e não fez feio. O remake sobre a obra original de Janete Clair foi ar e conseguiu frear a quarta edição de "A Fazenda", da Record.
Séries e Minisséries
Na categoria séries, "Tapas & Beijos" é quase uma unanimidade e tem tudo para emplacar várias temporadas. Já "A Mulher Invisível" não deve seguir em frente. "Força-Tarefa" e "Macho Man" ficaram devendo e voltaram ao ar sem grandes impactos. Na Band, "Julie & Os Fantasmas" foi uma boa sacada dedicada ao público infanto-juvenil, enquanto "Malhação", da Globo, patinou na audiência e sofreu uma reviravolta que não teve (e não terá) nenhum efeito.
Apresentadores
Hebe Camargo estreou na Rede TV! e a atração, com uma ou outra novidade, como o quadro "Roda das Mulheres", não se distanciou do formato do programa que apresentou, durante anos, no SBT. Na emissora de Silvio Santos, Patrícia Abravanel vem ganhando espaço e se firmando no posto de apresentadora. Marília Gabriela chegou a apresentar três programas - "De Frente com Gabi", "Roda Viva" e "Marília Gabriela Entrevista" -, se afastou do programa da TV Cultura e ganhou mais uma edição, às quartas-feiras, do programa do SBT. Merecido. Gabi é a melhor entrevistadora da TV brasileira. Com novos desafios pela frente, Fátima Bernardes disse adeus à bancada do "Jornal Nacional", da Globo, que dividiu ao lado do marido, Willian Bonner, por 14 anos. E o vaivém que rendeu muita polêmica foi protagonizado por José Luiz Datena, que deixou a Band para trabalhar na Record e com pouco mais de 20 dias voltou para antiga emissora. Já Regina Casé levou sua alegria e carisma para as tardes de domingo com o popularíssimo "Esquenta". Destaque ainda para o retorno de Regina Volpato à TV. A apresentadora fechou com a Rede TV! para dividir o comando do “Manhã Maior” com Daniela Albuquerque, campeã de micos no ano.